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Archive for April, 2011

25 de Abril de 2011

Através da comunidade Warmshowers consegui um anfitrião na cidade de Aljaraque, mesmo ao lado de Huelva. Por isso parto de Sevilha, com a certeza de que finalmente vou ficar em casa de locais e poder partilhar as minhas aventuras.

O dia de hoje tinha reservado uma surpresa, de ordem climática: nevoeiro. Já tinha enfrentado dias de sol muito quentes; chuva e vento forte; granizo…e agora pedalava pelo nevoeiro adentro.

Por causa da má visibilidade, ligo a luz traseira. Não é muito forte mas deve ser o suficiente para os automóveis não me acertarem.

Com mais uma mudança no clima lembro-me de um aspecto curioso neste, quase a completar, um mês de viagem: NUNCA TIVE DOENTE!

Eu sei que não é assim um período tão longo, mas se tivermos em conta, por exemplo, as condições climatéricas que tenho enfrentado nos últimos dias – chuvas fortes que faz com que por vezes não consiga manter a roupa e calçado secos durante todo o dia – é algo espantoso.

Julgo vivermos numa sociedade cada vez mais “hipocondríaca”, onde a auto-medicação é uma prática tomada como normal e muitas das vezes com leviandade, ou ao mínimo sintoma vamos a correr para a mais próxima farmácia ou hospital. E se falarmos então das crianças, o caso torna-se ainda mais grave. Na Holanda as crianças, desde os seus primeiros meses de vida, viajam com os seus pais na bicicleta, quer faça sol ou chuva, quer faça calor ou frio; e no final, no geral, os holandeses raramente estão doentes e quando o estão, ficam em casa a repousar e a ida ao hospital é só considerada em último caso.

Não sei se o meu caso é sorte, mas a verdade é que dizem que para garantir um bom sistema imunitário para proteger o nosso organismo de agentes invasores e prejudiciais, é importante termos hábitos alimentares saudáveis: SIM; actividade física regular: 1600km no último mês; exposição ao meio ambiente que nos rodeia: 2/3 dos meus dias são passados ao ar livre. Bem vistas as coisas…acho que não é sorte :).

Mas voltemos ao dia de hoje. O nevoeiro entretanto esfumou-se e deu lugar ao sol, apesar de um céu algo nublado. Está um dia calmo na estrada, com poucos carros e poucas pessoas na rua ou nos campos agrícolas.

Passo por uma localidade cujo nome não fixei.
O que ficou fixado na minha memória foram umas muralhas que se erguiam mesmo no centro da localidade. Algumas partes da muralha já não existiam, dando uma outra sensação de estarmos realmente, perante uma construção muito antiga que o passar dos anos não conseguir por completo, destruir.

Estou quase a chegar a Huelva quando passo uma enorme unidade industrial. Pelo que consigo ver da estrada, é uma fábrica de transformação de madeira. Enormes montes do que eu julgo ser serrim, amontoam-se uns atrás dos outros. A empresa chama-se Ence e dedica-se à produção de celulose e energia conseguida da biomassa cultivada. A Ence gera uma área total de cerca de 116 mil hectares de florestas espalhadas por Espanha, Portugal e Uruguai. Para aqueles que estão a pensar: “Chiça. Isso é muita floresta!”, não se pensarmos que a floresta da Amazónia tem uma área de 5,5 milhões de km² :|.

Pouco depois chego a Huelva onde também chegaram as nuvens muito cinzentas.O meu anfitrião está disponível a partir das 17h, por isso vou parar para almoçar e descansar um pouco depois de já ter pedalado cerca de 90km. “Que máquina”.

Depois do almoço e como ainda estamos longe da hora, vou até a um café mesmo ao lado do cais portuário. Estou tão perto que do lugar de onde estou sentado, consigo ver com clareza, a operação de descarga de um navio de carga. Ver aquela grua gigante fixa ao solo, a manusear os enormes contentores como se fossem de papel, é impressionante. Peço um café e relaxo. Entretanto começa a chover.

O tempo passa e rápido e já é perto das 17h. Vou telefonar ao meu anfitrião, o José. A casa do José fica em Aljaraque, uma cidade a cerca de 10km do centro de Huelva e para chegar lá, tenho que atravessar uma ponte. Do lado de lá, o José espera por mim, numa loja Leroy Merlin.

Feitas as apresentações rápidas, porque a chuva está cada vez mais forte, ele dá-me as indicações para chegar até casa dele. O José e a sua família moram numa casa de um andar, bem no meio do nada. Uma estrada em terra atravessa uns campos e termina na mini-quinta do José, da sua mulher que está grávida de 12 semanas e do filho de 2 anos. Sou recebido de uma forma extraordinária: não me sinto um estranho que mal acabou de entrar na casa deles. São pessoas simples e sinto-me completamente à vontade e muito bem vindo ao seio daquela família.

José é meio espanhol e meio inglês, fruto de uma relação entre um espanhol e uma mulher de terras de sua Majestade. A sua mulher é 100% British. Ele depois de estudar Engenharia Informática (que grande coincidência), chegou a um ponto dos estudos que se apercebeu que não estava a seguir o caminho que mais lhe agradava e decidiu mudar o rumo. Emigrou para a Espanha e do nada, entrou para a indústria do morango. Hoje trabalha para uma empresa americana, produtora e distribuidora de morangos, com presença nos quatro cantos do mundo.

Com a chegada em breve de mais um elemento à família, José está a fazer algumas obras em casa e por isso não tem nenhuma divisão para eu poder dormir. E como chove, não dá muito jeito montar a minha tenda no enorme quintal. A solução? O José, como fantástico anfitrião que é, falou com um vizinho que no seu terreno tem uma casa de campo, onde tem uma cama e uma casa-de-banho, para ver se era possível eu ficar lá por uma noite. Sorte a minha que o vizinho gosta muito de Portugal e dos portugueses e foi com muito satisfação que ele deu as chaves da casa ao José.

Depois de tomar um banho, acompanho o José, ao centro de Aljaraque para algumas compras no único supermercado aberto. Mas antes, duas cañas e dois dedos de conversa :).

Já em casa, eles preparam o jantar, enquanto eu tento distrair o pequeno. Todos falamos em inglês o que facilita a comunicação. Jantamos, conversamos, rimos…são momentos únicos vividos com pessoas que me receberam de braços abertos e rapidamente nos tornámos amigos.

Até amanhã.

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Hola Sevilha

23 e 24 de Abril de 2011

Os dois dias passados em Sevilha foram abençoados, não pelo espírito da Semana Santa, mas pela chuva. Nos vários meios de comunicação espanhóis, várias são as referências a uma das piores, ou mesmo, a pior Semana Santa de que há memória. Para terem uma ideia, das cerca de 60 confrarias que existem só na cidade de Sevilha, nem 20 confrarias puderam sair à rua com imagens dos santos. Algo que é considerado uma catástrofe para toda a Andaluzia, para as suas gentes e para todo o turismo que gera esta semana.

Mas como eu é mais bolos e salgadinhos, não procissões religiosas, estava muito confortável a descansar no apartamento com a minha namorada. E aproveitava para matar as saudades da cozinha e das panelas :).

No Domingo, dia 24 de Abril, o sol decidiu dar um ar da sua graça e decidimos que depois do almoço, iríamos até ao centro de Sevilha para um passeio.

Vamos de autocarro até ao centro depois de uma espera de 30 minutos na paragem…ao sol! É a terceira que visito a cidade de Sevilha e fico sempre surpreendido bela beleza desta cidade.


Pela cidade ainda se viam alguns sinais das (não) celebrações da Semana Santa que terminou esta manhã. Por isso, a cidade está calma e apesar de ainda muitos turistas passearam pela cidade, muitos já transportam com eles as bagagens para mais tarde regressarem aos seus países.

Por falar em regressos…o céu nublado e muito cinzento regressa e o vento começa a soprar. Depois de quase uma semana debaixo de chuvas intensas e céu nublado, já sei o que aí vem. Decidimos voltar para Bormujos. E quando estamos a chegar à central de camionagem, começa a chover. Um sprint final salva-nos de uma molha certa. Já no apartamento, vemos pela janela um panorama que começa a tornar-se habitual, mas de todo, bem vindo.

Amanhã volto à estrada e continuo a minha viagem. Portugal está cada vez mais perto e eu mais perto de deixar Espanha que me acolhe à quase um mês de viagem.

Por isso, arrumo as minhas coisas e dou uma pequena revisão à bicicleta. Depois de cerca de 1600km, apenas conto com dois furos…nada mais. Zero quedas e zero problemas na bicicleta e assim espero continuar.

Até amanhã.

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22 de Abril de 2011

Hoje acordei com muito bom humor. Se as condições meteorológicas o permitirem, tenho intenções de chegar hoje a Sevilha e então parar por dois dias e voltar à estrada, no dia 25 de Abril: dia da Revolução.

E o meu bom humor aumenta quando me apercebo que ao olhar para o céu, não encontro muitas nuvens. Talvez hoje tenha mais sorte. Embalado por uma inesperada manhã sem chuva, pedalo a bom ritmo e em 3 horas chego à entrada da cidade de Sevilha.

Hoje também é o dia que a minha namorada viaja desde Portugal para Sevilha, e se o tempo permitir, assistirmos a algumas celebrações da Semana Santa que termina no Domingo, dia 24 de Abril.

Já na cidade encontro dois ciclistas, com as suas bicicletas carregadas com alforges. São ambos espanhóis e estão precisamente a dar início a uma viagem que os levará a Santiago de Compostela pelo famoso Caminho da Prata (“Via de la Plata”). Ao início julgam que também eu estou no caminho para Santiago de Compostela, mas tal como lhes explico, o meu plano é outro.

Para estes dois dias e três noites em Sevilha, o melhor que conseguimos encontrar, foi um pequeno apartamento num Aparthotel em Bormujos – uma pequena cidade a 10 minutos de carro, do centro Sevilha – e isto já como “última oportunidade”.

Entre outros factores negativos, este Aparthotel está localizado numa área de difícil acesso para quem viaja de bicicleta…muito difícil. Passo uma ponte que acaba no início da autovía e volto para trás. Sigo um caminho de terra que depois de tentar várias bifurcações, volto para trás…e entretanto a chuva está de volta. Por fim e depois de perguntar por informações, de ser enganado por um taxista, tentado mil e uma possibilidade de chegar ao Aparthotel, chego a Bormujos e pouco depois ao meu destino. Mas ao fazer o check-in, sou informado que o “nosso” apartamento ainda se encontra a ser limpo – tenho que esperar mais uma hora…ou mais.

Aproveito para almoçar…no McDonald’s 🙂

Depois de terminar o almoço, regresso ao Aparthotel, mas o apartamento continua indisponível. Começo a mostrar o meu descontentamento à recepcionista que diz lamentar, porém a culpa foi dos últimos hóspedes que saíram muito tarde, já para lá da hora de check-out. Pois…

É já no final da tarde que finalmente me instalo no apartamento. Está equipado com uma kitchenet onde certamente, irei matar as minhas saudades de poder voltar a cozinhar como deve ser.

Mas para já a hora é de um banho quente; de me esticar no sofá da sala; ver na televisão a enorme decepção da população espanhola numa Semana Santa “molhada” e de descansar.

Até amanhã.

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21 de Abril de 2011

Vou começar mais esta página do meu diário de bordo, pegando no comentário ao post anterior (Etapa #22) da autoria do meu grande amigo Carlos Barreto. O Carlos é um amante das duas rodas e para terem uma noção do quanto ele gosta de pedalar, leiam com atenção o comentário dele: 350km em dois dias numa viagem a Santiago de Compostela. O óhme é pro!

Agora a minha resposta: Eu concordo com tudo o que o Carlos disse: “(…)a chuva também faz parte e se tiver de ser debaixo dela, la terá de ser!!!(…)”. É isso mesmo o que eu tenho feito. É lutar contra a chuva e seguir caminho. Longe de mim ter pensado antes de começar esta viagem, que seriam dois meses de sol, sem uma única gotinha caída do céu. E também tenho noção que em quase um mês de viagem, as condições climatéricas, no geral, têm sido muito boas. Sei de outros ciclo-turistas (portugueses) que enfrentaram nas suas viagens, tempestades de neve, dias com temperaturas negativas e outros com um calor quase insuportável. Acho que no final, cada um queixa-se daquilo que pode :). Mas sublinho, que não é fácil, quando sais de manhã para viver mais um dia a viajar, descobrir, conhecer…e tens um dia cinzento, com muita chuva e por vezes ainda mais chato do que isso: o vento; que quando viajas com alforges e um peso de cerca de 25kg, se torna muito, mas mesmo muito incómodo.

Mas voltemos ao dia de hoje. Um dia que parecia um autêntico déjà vu do dia anterior. Pareciam as mesmas nuvens, o mesmo céu cinzento e o mesmo vento que soprava muito forte. Eu já nem esperava que melhorasse e equipado com o impermeável, lá parti para mais um dia…à chuva.

Hoje a chuva é tão forte e o vento sopra tão forte no sentido oposto ao qual me desloco, que tenho que “esconder” a cara, pois cada gota é como se fosse um pequeno alfinete a ser espetado na minha cara. Só vejo o alcatrão e a linha branca :).

Para piorar ainda mais um pouco as coisas, enfrento agora algumas subidas e recordo-me que uns dias atrás, através do facebook, descobri que um grupo de cientistas descobriu (depois de gastar milhares de euros dos impostos dos contribuintes) que proferir palavrões pode ajudar a libertar o stress. Pois bem, com essa recordação na cabeça, abri o livro! Imaginem eu a pedalar no meio de um temporal, numa subida a proferir, num tom de voz muito alto, os piores insultos que vocês podem imaginar. Um autêntico “Fernando Rocha” em duas rodas!

E tenho a dizer que o dinheiro dos contribuintes não foi de todo mal gasto. Sinto-me muito melhor e até me rio da minha própria figura à chuva a chamar nomes feios à mãe da chuva e do vento.

Muito mais “aliviado” mentalmente, para na localidade de Alcolea del Río. Faço algumas compras para o dia. Procuro algum sitio na localidade onde me possa abrigar da chuva e comer alguma coisa. Mas o melhor que consigo é um posto de venda de lotarias que tem um pequeno toldo. Para já vai ter que servir. Quando estou a preparar uma bela de uma sanduíche de presunto com queijo, recebo uma visita de alguém que também procura fugir à chuva. É preto, quatro patinhas e é um brincalhão :P.

Dou-lhe um pouco de comida e durante uns largos minutos, ficamos debaixo daquele toldo, protegidos da chuva, na brincadeira. Entretanto a chuva pára e decido continuar viagem. À saída de Alcolea del Río, ao lado da igreja local, vejo uma construção estranha, mesmo na margem do rio. Decido investigar, embora o caminho, devido às intensas chuvas, está muito enlameado. Mas estou curioso e lá continuo. Afinal as construções são um conjunto de moinhos abandonados. É pena, pois ainda se encontram em relativo bom estado de conservação. A chuva volta e eu volto à estrada.

Mas pedalar nestas condições não é fácil. Num ponto da estrada, a plano, a pluviosidade é de tal forma grande que a água se acumula e a estrada fica completamente submersa. Devia ter trazido os remos.

Vejo as indicações para uma localidade e vou tentar a minha sorte e procurar abrigo, junto de algumas residentes que ao verem um pobre coitado de bicicleta debaixo daquele temporal, sintam uma pontinha de pena e me estendam a mão.

Passo por um café e faço o meu teatro e pergunto se existe algum hotel na localidade (eu já sabia antemão que não), pois não aguento mais o temporal. Devo ser mau actor ou então este povo andaluz é uma desilusão para todos aqueles que pregam que devemos sempre ajudar o próximo, nem que seja um jovem a passear numa bicicleta carregada, em pleno dilúvio, pois não tenho qualquer reacção favorável. É um pouco triste. E triste deixo aqueles que me olham com pena, mas nada fazem e até aqueles que quase não olham, tal é a indiferença.

Tento esquecer e sigo caminho. A póxima localidade no meu caminho é Cantillana. Estou exausto e mesmo com o impermeável, estou molhado e tenho frio. Decido por isso procurar um hotel. Desta vez nem procuro alguém que me possa ajudar. Vou directo ao primeiro hotel que encontro e tento descansar após mais um dia difícil, onde falharam aqueles dos quais eu mais espero: as pessoas.

Até amanhã.

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20 de Abril de 2011

Estava com esperanças que hoje o tempo desse tréguas e que a chuva não desse ares da sua (des)graça. Mas quando olhei pela primeira vez o céu…a cenário não era animador. Muitas nuvens e o vento continua a soprar forte. Vai ser mais um dia “molhado”.

Com este mau tempo, uma pessoa fica menos alegre e algumas situações desagradáveis que, num dia de sol, passariam por completo ao lado, em dias cinzentos como estes, irritam-me mais do que deviam. E não sei se será por isso que começo a sentir, eu não diria irritação, mas algo que poderia mudar… E o que é? Muito fácil: Espanha.

Já são cerca de 40 dias, se contarmos com os dias passados em Barcelona antes de começar a pedalar, passados em Espanha…a conviver quase sempre com espanhóis e quase sempre a (tentar) falar espanhol. Atenção, não me interpretem mal: estes 40 dias têm sido fantásticos e os cerca de 1500kms já percorridos, simplesmente…memoráveis. Mas…sinto que é altura de mudar, de virar a página deste livro de aventuras e viver outros desafios, noutro país, com outras pessoas, a falar outra língua.

Penso nisto enquanto começa a chover. Pensaria a mesma coisa, se tivesse um lindo dia de sol? Talvez, mas não seria a mesma coisa.

Tento animar, parando junto a um parque natural que, e vou insistir nisto, se tivesse um dia de sol, seria um local excelente para ficar uma noite em campismo selvagem, mas hoje não!

Como o parque natural estende-se por vários quilómetros, decido fazer um desvio ao que seria a minha rota normal em direcção a Sevilha, e sigo pela estrada que rodeia o parque.

Vejo cavalos, um rebanho de ovelhas, várias linhas de água, várias plantações de oliveiras, pomares de laranja e tangerinas…este parque parece a arca de Noé, a diferença é que este parque natural existe.

Estou a seguir em direcção a uma localidade com o nome de…Homachuelos. Deixo aqui um cumprimento especial a todos os…Homachuelanos. Que raio de nome!

[MODE lembrei-me agora ON]

Vocês já repararam que a marca espanhola de automóveis, Seat, apenas escolhe para os seus modelos, nomes de cidades Espanholas?

Imaginem só se a Seat fosse Tuga: Seat Cartaxo 2.0TDI, Seat Mangualde 4×4…

[MODE lembrei-me agora OFF]

A cidade de Homachuelos, está situada em pleno parque natural e a norte da localidade, é banhado por um enorme rio. Uma pequena barragem aguenta um caudal que desespera por seguir o seu caminho. Mas esta região não se pode dar ao luxo de ver os níveis dos rios baixar demasiado.

Passo por Homachuelos e quando já percorri alguns kms, consulto o gps que me dá a imagem perfeita que estou a fugir, em demasia, da direcção para Sevilha. Encontro um centro de apoio a todos aqueles que visitam o parque e pergunto se seguir nesta estrada poderei, alguns kms mais à frente, retomar caminho em direcção a Sevilha. Não. A resposta é simples. Por esta estrada não vou até Sevilha; quer dizer, vou…mas dou uma g’anda bolta!

Faço o caminho inverso até ao ponto onde me desviei para Homachuelos (é a 4ª vez que refiro o nome Homachuelos, 5ª :)).

Depois do parque natural, com as suas árvores e muita vegetação, agora a paisagem é pintada de grandes planícies. E nas planícies está Lora del Río, a minha próxima paragem de hoje. E talvez a última, porque ao chegar ao centro da localidade e depois de já ter almoçado, as nuvens voltam a juntar-se à mesa, bem carregadas e cinzentas, prontos para entornar não copos, mas jarras bem cheias de água sobre mim.

E por vezes, detesto ter razão…chuva, muita chuva; vento forte, muito forte e trovões. Pelo 2º dia consecutivo, o tempo de pedalar para mim acabou e mais uma vez não tenho condições para procurar um local para acampar. Pergunto por algum hotel, hostal ou hospedaria na localidade e indicam-me um que dá pelo nome de “La Portuguesa”.

Fico curioso com o nome do hotel que também é uma pastelaria. Pergunto o porque daquele nome tão português. A dona diz-me que a pastelaria e todo o edifício onde fica o hotel, pertenceu a uma tia sua que era portuguesa, da zona de Lisboa e que na década de 70 imigrou para Lora del Rió, para casar com um espanhol. E que depois de falecer, calhou à sua família seguir o negócio.

Já no quarto, coloco a roupa a secar e pela janela vejo mais um dia de intenso temporal e não me resta muito mais que me deitar, ver um pouco de televisão e assistir, via web, à vitória do F.C.Porto sobre o S.L.Benfica por 1:3, para a taça de Portugal, marcando o passaporte para a final, isto em plena catedral, desta vez, com luz 😉

Até amanhã.

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19 de Abril de 2011

Tinha visto nas previsões meteorológicas transmitidas pela televisão espanhola, que hoje seria dia de trovoadas e chuva forte. Mas ao deixar Córdoba estava sol embora o céu parcialmente nublado.

Os próximos dias vão levar-me até Sevilha. Mas tenho um dia para chegar à cidade Andaluz – eu passo a explicar. A minha namorada, a Ariana vem encontrar-se comigo em Sevilha e chega no dia 22, sexta-feira. E como hoje é dia 19, tenho três dias para pedalar cerca de 140km…não tenho pressas.

E é sem pressas que chego a uma localidade com nome de artista: Almodóvar del Río. É del Río porque a cidade fica localizada na margem direita do rio Guadalquivir. Ao entrar na localidade, avisto no alto de um monte, um castelo. Acho que merece uma visita, mas antes quero dar uma volta pelo cidade.

Almodóvar del Río é um município com cerca de 8000 mil habitantes e fica situada a 22km de Córdoba.

Quase sempre que chego a uma localidade segui as indicações para o Ayuntamento, porque geralmente é onde se encontra o “centro” e onde há mais probabilidade de encontrar concentrações dos seus habitantes. E Almodóvar del Río não é excepção e paro numa esplanada, a única por sinal por estas bandas. De dentro do bar vem um cheirinho…e eu cheio de fome. Uma emprega pergunta-me o que eu quero. Peço uma coca-cola mas aquele cheiro está a mexer comigo e a senhora deve ter reparado na baba que certamente já saía da minha boca e disse-me que a cozinheira estava a preparar algumas tapas para serem servidas mais tarde – ainda não é meio dia – e que pode saber se algumas já podem ser servidas.

Instantes depois, diz-me que pode servir uns croquetes de bacalhau com espinafres. Aquilo soa-me muito bem e peço meia dose (6 unid).

Uma autêntica delícia :P.

Agora sim, estava preparado para enfrentar a pequena montanha até chegar ao castelo. Cá de baixo parecia pequeno, mas à medida que vou subindo, o castelo como que por magia, vai-se tornando maior. É uma pequena mas muito íngreme subida até ao castelo, mas vale a pena: a paisagem é fantástica.

Depois de recuperar o fôlego, visto a pele de turista e visito o castelo. A entrada custa 5€ e deixo a bicicleta ao lado do posto de venda.

[MODE lição de história ON]

O castelo de Almodóvar del Río é uma fortaleza militar de origem Árabe do ano de 760, que os Árabes edificaram aproveitando uma antiga construção de épocas primitivas. Encontra-se implantado no alto de um monte, a 252 metros acima do nível do mar, e ocupa uma área total de 5.628 metros quadrados. Apresenta uma planta aproximadamente oval, onde se distinguem os traços tanto da arquitectura muçulmana, quanto cristã.

Nas suas muralhas destacam-se as chamadas “Torre Quadrada”, “Torre Redonda” e a “Torre de Menagem”. No interior do recinto abre-se o Pátio de Armas. Destacam-se ainda as masmorras, os adarves(em arquitectura militar é um caminho no topo dos muros de uma fortificação) e os subterrâneos.

Entre os anos de 1903 e 1911, o seu proprietário, Rafael Demaissieres, conde de Torralva, iniciou uma vasta campanha de reconstrução do castelo. Trabalhos complementares estenderam-se até à eclosão da Guerra Civil Espanhola, contexto em que o mesmo veio a sofrer danos.

Encontra-se protegido sobre o Património Histórico Espanhol e actualmente ainda em mãos particulares, encontra-se aberto ao público, diariamente, com visitas guiadas.

Foi ainda recentemente, eleito uma das sete maravilhas da Província de Córdova.

[MODE lição de história OFF]

Foi uma surpresa este encontro com este castelo e foi um tempo muito bem passado.

De volta ao papel de ciclo-turista, era hora de voltar à estrada e “gastar pneu”. Mas iria ser por pouco tempo…pouco tempo depois de sair de Almodóvar del Río, o vento começa a soprar forte e as primeiras gotas começam a cair. Instantes depois, as gotinhas transformaram-se numa trovoada com ventos muito fortes. Com a chuva consigo eu lidar bem, mas o vento…estava difícil evitar um contacto com o alcatrão molhado. Encontro um hotel/restaurante perto da estrada e decido parar, nem que seja por uns instantes e esperar que as condições meteorológicas melhorem.

Depois de quase uma hora à espera por melhorias, o tempo está pior :(. Resta-me dar por terminado a etapa de hoje, e passar o resto do dia e noite, neste mesmo hotel.

Já no quarto do hotel, vejo pela janela a chuva a cair com cada vez mais intensidade. O cenário não é animador e só espero que amanhã as coisas melhorem.

Até amanhã.

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Hola Córdoba

18 de Abril de 2011

Antes de vos falar um pouco sobre Córdoba, ainda era preciso deixar o Parque Periurbano Los Villares. Dormi muito bem no parque. Descansei bem, mas não o suficiente e sinto algumas dores nas pernas, nomeadamente, uma dor mais forte na coxa direita que me está a preocupar um pouco.

Deixo-me estar na tenda até mais tarde. No dia anterior reservei um quarto num hostal a 10min de carro do centro histórico da cidade e a ideia é fazer o check-in, tomar um banho e ir dar um passeio.

Desmonto a tenda e depois de tudo arrumado, deixo o parque e agora espera-me uma descida de 14%. Nice…

Descer não é preciso força nas pernas, mas é preciso muita prudência. Com o peso dos alforges e uma inclinação de 14% é preciso ter cuidado e é preciso fazer muito uso dos travões. Mesmos assim, demoro cerca de 20 minutos a descer o que tinha demorado cerca de 1 hora e meia a subir no dia anterior!

Faço o check-in no Hostal La Palmera. Só para terem uma ideia das condições que encontro, tinha pensado em colocar umas fotografias, mas como a minha mãe acompanha este blog…não a quero deixar demasiada preocupada :).

Depois de tomar banho (casa de banho partilhada) e pirar-me o mais depressa possível do hostal, caminho até ao centro histórico da cidade. Mas não me sinto bem. As dores na coxa direita não desaparecem e os cerca de 2km que percorro até Mezquita-Catedral apenas pioram as coisas. Tenho fome e numa rua muito estreita encontro um restaurante de tapas: “Las Comedias 101 Tapas”.

Depois de me sentar, o empregado deixa-me um papel com todas as tapas e explica-me que marque um “X” nas minhas opções. As tapas estavam deliciosas e sinto-me confortável num ambiente muito tradicional.

Visito a mesquita, o Paseo de Córdoba e de novo a torre de Calahorra. Mas as dores no físico não deixam para muito mais. Faço algumas compras e regresso ao hostel. Gostava de ter visitado mais desta linda cidade que se candidata a cidade Capital Europeia da Cultura para o ano de 2016. Talvez assim se justifique no futuro, por certo, uma visita a Córdoba, com mais tempo e sem dores nas pernas. Fica aqui também o convite: visitem Córdoba.

Até amanhã.

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