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Archive for May, 2011

6 de Maio de 2011

Como já esperava dormi muito bem e cada vez mais sou um fã do campismo selvagem. Sendo sexta-feira e estar relativamente próximo de Lisboa, parto de Vila Nova de Sto. André com essa meta na cabeça: a capital.

Está um dia esquisito. O céu está parcialmente nublado e apesar do sol não se mostrar, está calor e sinto muita humidade no ar. Esta zona que agora percorro não é muito habitada. Algumas pequenas localidades comprovam que aqui à vida, embora esta manhã ainda não tenha visto ninguém. Isso só acontece quando paro um pequeno café para comprar água. Mas o senhor que me atende não está para grandes diálogos e depois de eu pagar o que devo, “desaparece” nas traseiras do café. Mato a sede e continuo a minha travessia do pouco que ainda me resta da costa alentejana.

Para chegar à margem sul do rio Tejo tenho duas opções: ou sigo em direcção a Alcácer do Sal, contornando o estuário do rio Sado, viajando sempre por terra; ou então sigo em direcção à península de Tróia e depois de barco, atravesso o estuário do rio Sado. Decido pela segunda opção pela curiosidade da travessia de barco :).

Já entrei na península de Tróia e é engraçado reparar, nos pontos mais altos, que estou rodeado de água. Quando já consigo deslumbrar ao longe a cidade de Setúbal, vejo as indicações do local de partida e chegada do ferry-boat que faz a ligação Setúbal Península de Tróia. O serviço de transporte fluvial está entregue à empresa “Atlantic Ferries”. Depois de comprar o bilhete, chego ao local de embarque onde já se encontram alguns automóveis…o ferry não deve demorar.

Passados cerca de 10 minutos já vejo o barco. O verde vivo que cobre toda a embarcação chama a atenção “a milhas”. O ferry depois de atracar e de se imobilizar por completo, baixa uma rampa e os automóveis e pessoas que transporta, abandonam a embarcação. Agora é a minha vez.

Entretanto o céu está limpo e o sol brilha com intensidade. As águas estão calmas e depois de todos estarem a bordo, o ferry começa a navegar em direcção a Setúbal. São cerca de 20 minutos muito descontraídos onde aproveito para com a ajuda do meu mapa, traçar mentalmente o meu trajecto mal chegue a terra.

De novo com os pés em terra, sigo o meu caminho, sempre em direcção ao norte. Mas pela frente tenho um “alto” desafio que dá pelo nome de Serra da Arrábida. Como o próprio nome, é uma serra situada na margem norte do estuário do Rio Sado, na Península de Setúbal, com o ponto mais alto a 501 metros de altitude. Não atinjo o ponto mais alto da serra mas ainda assim é um trajecto muito íngreme, expondo toda a sua beleza natural.

Conquistado o ponto mais alto da serra, agora o trajecto é bem menos sinuoso e plano. Aproveito para fazer uma pequena pausa e entrar em contacto com um amigo de faculdade que vive agora em Lisboa. O João Pedro é natural da Telhada, Figueira da Foz e vai estar por Lisboa durante o fim-de-semana e está disponível para me receber em casa dele. Com lugar para ficar resta-me seguir caminho em direcção à cidade do Barreiro, onde tenho barco para atravessar o rio Tejo – do outro lado é Lisboa.

O dia já vai longo e o cansaço começa a fazer-se sentir. As nuvens cobrem agora o céu e a chuva parece iminente. O serviço de transporte fluvial está entregue às empresas: “Transtejo” e “Soflusa”. Para minha sorte ao chegar ao terminal está um barco (catamarã) prestes a partir. Compro o bilhete a “pedalar” e por segundos consigo embarcar. Depois de arrumar a bicicleta num espaço próprio para o efeito, sento-me e lancho uma banana e umas bolachas.

A viagem é curta mas ainda assim o tempo suficiente para eu “passar pelas brasas”. Acordo com o alvoroço das pessoas a desembarcar. Finalmente estou na capital de Portugal: Lisboa. À minha frente tenho agora a Praça do Comércio, mais conhecido por Terreiro do Paço e em plena praça, decorre um espécie de comício ao ar livre do Partido Comunista Português (PCP). Uma voz que me soa familiar ouve-se por entre a pequena multidão, mas não consigo ver a pessoa.

Depois de atravessar quase toda a praça, consigo finalmente ver a pessoa que num pequeno palanque discursa, num tom sério: A inconfundível e incontornável, Odete Santos. Não presto atenção ao seu discurso mas apenas para a personagem única que é esta senhora. Parece uma actriz cujo papel é representar no palco da realidade. Cada gesto, cada palavra, cada olhar, parece encenado e tirado de um guião escrito pelos deuses da representação.

Depois do “Odete Santos Show” sigo o meu caminho. Tenho a morada do meu anfitrião e pelas informações que consigo obter de um polícia da cidade, a casa dele não fica longe. Mas para quem já percorreu quase uma centena de quilómetros, o “pouco” começa a parecer muito.

Levo cerca de 30 minutos a chegar ao meu destino para a etapa de hoje. Porém o meu anfitrião: João Pedro só chega a casa pelas 19h, ou seja, tenho pela frente cerca de 2 horas de espera pela frente.

Sento-me numa esplanada e bebo uma coca-cola e escrevo no papel algumas destas palavras. Entretanto o tempo piora e decido voltar para perto da casa do João. Estou à chuva e começo a sentir algum frio. O meu anfitrião não poderia ter um timing mais oportuno para chegar a casa. Deixo a chuva e o João ajuda-me a transportar a minha bagagem para o 2º andar onde ele vive com mais três inquilinos.

Finalmente estou instalado e agora é tempo de descanso depois de mais uma etapa longa, mas onde mais uma vez atingi a meta traçada no início do dia.

Até amanhã.

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5 de Maio de 2011

Ao acordar apercebo-me que estou, novamente, sozinho em casa. Nem tive a oportunidade de agradecer ao Sylvain e despedir-me. Como eu já tinha dito: estranho este rapaz.

Tento deixar tudo arrumado e fecho a porta. Depois de um dia muito difícil, hoje não sei como o meu corpo vai reagir. A etapa de ontem apesar de ter sido muito exigente em termos físicos, foi de um regalo para a vista. O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV) oferece paisagens maravilhosas. Hoje ainda tenho alguns quilómetros dentro parque pelo que só por isso já começo o dia bem disposto.

Se ontem foram os burros e um cavalo, os animais que encontrei; hoje encontro uma manada de vacas. Mas ao contrário de ontem, não me aproximo dado que este animal não me transmite muita, ou quase nenhuma, confiança. Tiro algumas fotografias e sigo caminho.

Logo pela manhã temos a subida do dia. Mas mais uma vez, o cenário envolvente é imensamente bonito e o esforço físico nestes casos, passa para segundo plano. Estou tão envolto nas paisagens de tons verde e numa natureza tão pura, que não me apercebo dos quilómetros passarem e Silves surge de repente diante de mim.

Às portas da cidade existe uma grande presença de indústria. São inúmeras as fábricas e a azáfama de camiões que entram e saem é enorme.

Mas Sines não é só indústria. Como cidade costeira, tem uma bonita praia de areia clara e fina. Dirijo-me ao centro da cidade para almoçar. Encontro um parque e decido por comprar pão e aproveitar alguns enlatados que trago comigo, para fazer uma espécie de picnic. Em torno do parque consigo ver três pastelarias. Entro na primeira: “Queria pão.” – “Não temos(…)”. Estranho. Entro na segunda: “Tem pão?” – “Não senhor…só sandes de fiambre, queijo ou mistas para comer aqui.”. Tento a terceira que por acaso tem o nome de “Pão Quente”. Se uma pastelaria com este nome não tem pão…não vou encontrar pão em lado nenhum. Mas a pastelaria faz jus ao nome e finalmente encontro o pão que tanto procurava.

Com o meu precioso pão, preparo o meu picnic: sandes de pão com paté; lata de salada de massa com atum e bananas. Fico muito satisfeito e deito-me na relva, à sombra de uma árvore.

Depois da quase siesta, é hora de voltar à estrada e começar a pensar num sítio para ficar esta noite. Depois de um par de horas a pedalar, chego a Vila Nova de Santo André. Não sei porque mas o nome soa-me a familiar, mas não me recordo de ter cá estado alguma vez.

É uma pequena cidade e vejo indicações para a Lagoa de Santo André. Parece interessante e decido investigar. Tratasse de um extenso lençol de água, ladeado de mantos de areia fina. Uma obra prima da natureza. Para tornar a Lagoa de Santo André um local privilegiado para quem procura a natureza, a Câmara Municipal de Santiago do Cacém promoveu a desocupação da duna primária da Costa de Santo André do caos urbanístico que se agravou na década de 1970 durante a vigência do Gabinete da Área de Sines, criando um novo loteamento destinado a realojamento das famílias até então residentes na duna. A Lagoa de Santo André constitui um ponto estratégico para a estadia, passagem e nidificação de muitas espécies de aves migratórias. Foi declarada pelo estado Português a Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha a 22 de Agosto de 2000.

É uma zona que apesar da sua enorme beleza e com uma praia tão magnífica quanto a lagoa, não sofreu a invasão do turismo que seria de esperar num local tão único. E isso agrada-me imenso e acabo de encontrar o meu local para esta noite.

Um pouco depois de Vila Nova de Santo André e antes da praia da Costa de Santo André, várias matas erguem-se mesmo ao lado da estrada. Não preciso de procurar mais. Monto a tenda e aproveito o resto de tarde e noite, simplesmente a viver a natureza que me rodeia e uma paz enorme. O sono vai ser, com certeza, muito bom.

Até amanha.

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4 de Maio de 2011

São as 5h50m da manhã e o telemóvel desperta-me. Hoje vou falar na rádio em directo, no programa do José Candeias na Antena1, que tem início às 6h. Mas o meu corpo não aguenta tamanha brutalidade que é acordar tão cedo e volto a dormir sem eu dar por isso. Acordo cerca de 30m depois, mas desta vez não é o despertador do telemóvel, mas a própria chamada do José Candeias para entrar em directo. Tento acordar e ter uma postura o mais parecida com alguém que esta super acordado e super bem disposto. Alguns instantes depois estou a falar com José Candeias e com mais dois ciclo-turistas portugueses a partir do Peru. A minha participação no programa, resume-se basicamente a uma muito breve apresentação do projecto 2B’s e pouco mais. Foi pouco, mas foi uma experiência diferente e espero voltar a falar em directo na rádio.

Podem constatar o meu estado sonolento na área que criei para todas as minhas “aparições” nos meio de comunicação social (os media), em:
https://intotheroad.net/2bs/media

Depois do meu momento de estrela de rádio, fico um pouco excitado e como tenho uma longa etapa pela minha frente, decido em vez de voltar a dormir, começar a arrumar as coisas. Ainda não são as 9h da manhã e já estou a pedalar.

A manhã de hoje estava reservada para visitar o cabo de São Vicente. Do campismo de Sagres onde passei a noite, foi uma curta viagem. No cabo, existe o farol do cabo de São Vicente. O actual farol foi construído por ordens de D.Maria II em 1835 e inaugurado por D.Fernando. Já sofrei várias obras de remodelação e beneficiação, tendo um alcance, nos dias de hoje de 33 milhas (~60km).

Mas só pode ver o farol de longe pois o portão da muralha que o guarda estava fechado – o horário de abertura começava às 10h.

Como o local estava quase deserto, apenas aproveitei para tirar algumas fotografias ao cabo de São Vicente e seguir caminho. Pouco depois já pedalava com uma direcção completamente diferente: norte era agora o rumo que eu seguia.

À medida que ia pedalando, ia notando que a paisagem estava a mudar. Até a estrada parecia diferente. O Algarve estava a dar lugar ao Alentejo e eu estava feliz. Mas é um Alentejo diferente do qual eu sempre imagino. Não é aquele Alentejo de grandes planícies douradas de cereal ou campos de oliveiras e sobreiros. Este Alentejo que eu percorro, o do litoral, é verde e montanhoso. Está um dia de muito calor, mas as árvores que parecem abraçar a estrada, mantém quase sempre a estrada numa fresca sombra.

Apesar do vento forte, estou a desfrutar imenso o princípio do dia de hoje. Um dia que vai ser longo pois tenho como meta, Vila Nova de Milfontes, onde uma pessoa do Warmshowers, aceitou abrir as portas de sua casa para mim.

Mas não vou minimamente a pensar no que ainda me resta pedalar, tal é o prazer que estou a ter em cada quilómetro que percorro. Passo por pequenas localidades onde curiosamente encontro várias lojas ligadas ao Surf. E não é com surpresa que começam a passar por mim automóveis transportando no tejadilhos pranchas de surf. As praias por aqui devem ter boas ondas…

Chego a Aljezur perto do início da hora do almoço. Já levo quase meia etapa percorrido e decido parar para almoçar. Numa agradável esplanada bem protegida do sol, sento-me e peço uns filetes de pescada com arroz de tomate. Bebo duas coca-cola e no final um café bem forte, porque isto de acordar pouco depois das 06h, não é fácil.

Volto à estrada e pouco depois tenho um inesperado encontro com uns seres muito simpáticos. É uma manada de burros e…um cavalo que passeiem tranquilamente num terreno vedado mesmo ao lado da estrada. Não hesito e paro mesmo junto à vedação.

Estão todos muito bem cuidados e parecem estar familiarizados com as pessoas, porque mal se apercebem que alguém está por perto, começam todos a virem em direcção a mim. A quase 1 metro de distância e apenas uma vedação em arame a separar-me daquele simpático grupo de animais, não sinto qualquer tipo de receio e aproximo-me ainda mais, ao ponto de poder fazer algumas festas aos burros que se vão “atropelando” para tentarem a sorte e até o cavalo se mostra um animal super dócil. Foi um momento muito especial.

É com alguma tristeza que digo adeus aos meus novos amigos. Por momentos senti que não estava sozinho na viagem e foi bom sentir que eles também gostaram que eu tivesse parado :).

O dia já vai longo, mas Vila Nova de Milfontes ainda não está perto. As subidas já as enfrento e as ultrapasso com alguma dificuldade. O calor continua a fazer-se sentir e estou prestes a ficar sem água. Mas mentalizo-me que tenho que continuar e que vou conseguir atingir o objectivo que tracei para este dia. Podem achar que está errado, sentir-me cansado e querer continuar. Eu chamo-lhe determinação, vontade e espírito de sacrifício. E sempre há uma ou outra descida para animar o pessoal :).

Já ultrapassei a barreira dos 100km percorridos e com as forças a fugir, o vento que sopra parece ganhar força. Mas continuo a pedalar…até chegar! São perto das 16h30 quando chego às portas da vila. Já cá tinha estado duas vezes, mas nunca tinha ficado tão contente por ter chegado. Mas a felicidade de ter chegado é abalada por um mal estar que bem aumentado desde uns quilómetros. O primeiro café que encontro paro e sinto-me zonzo. Sento-me e a cabeça pesa-me, estou com tremores e suores frios. Posso perceber pouco de saúde, mas sei que estou a ter uma quebra de açúcar. Peço uma coca-cola; nem deu para lhe sentir o sabor. Peço uma segunda coca-cola e uma tosta-mista. Passado alguns minutos começa a sentir melhores e pouco depois posso dizer que estou recuperado. Agora ficaram as imensas dores musculares, mas para isso, só o descanso.

O meu anfitrião só está disponível a partir das 19h. Aproveita então para dar uma pequena volta pela vila. Parece estar tudo mais ou menos igual aquando da minha última visita.

À hora marcada estou à porta de casa do meu anfitrião e ele pouco depois abre-me a porta. Sylvain Griot é um jovem de França, da cidade de Paris, que trabalha para uma empresa de produção e colocação de relvados em grande escala, como por exemplo em estádios de futebol. Vive em Vila Nova de Milfontes à cerca de 2 anos. É vegetariano e gosta tanto de viver nesta vila que pondera daqui a 1 ano ficar por cá, altura em que o projecto dele em Portugal acaba.

Ele tem um compromisso pelo que me deixa as chaves de casa e antes de sair diz-me para ficar completamente à vontade e que não conte com ele para jantar. Engraçado este jovem francês :).

Depois de tomar banho e arrumar as minhas coisas saio para jantar. De outras visitas conheço uma bela tasca na avenida que dá acesso ao centro. Está uma noite agradável e a vila ainda não tem aquela azáfama de jovens e turistas da época plena de verão.

Depois de um saboroso prato de frango assado, dou um pequeno passeio pela vila, para depois regressar a casa. Foi um dia muito longo e em termos físicos estou bastante cansado. Mais do que nunca, hoje preciso realmente de descanso.

Até amanhã

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3 de Maio de 2011

Foram dois dias em família, onde posso dizer que tirei a barriga de misérias. O meu primo Sérgio e o resto da família, preocuparam-se em garantir que nada me faltava – quer atenção, quer muita comida – e eu não me fiz rogado.

Fica a promessa de voltar, noutras condições e ficar por mais dias. Por isso ainda não me despedi e já estou com saudades.

O plano para hoje é chegar a Sagres e conquistar mais um ponto épico: o Cabo de São Vincente, o ponto mais a sudoeste do continente europeu. Deste ponto vai ser sempre pedalar com direcção a norte, ora pela costa, ora por regiões mais interiores do continente.

Hoje não chove e pude ver na televisão que as previsões meteorológicas para os próximos dias é de ausência de chuva. Nice…

Despeço-me dos meus anfitriões em Lagos, mas o meu primo Sérgio faz questão de mostrar a saída da cidade, com o carro de “empresa” dele…um carro da Polícia :). É a primeira vez que tenho direito a escolta policial nesta viagem…e na minha vida.

Sigo pela estrada nacional 125 que atravessa todo o Algarve. Mas noto que à medida que deixo Lagos para trás, o trânsito é muito pouco e a paisagem é dominada por zonas rurais.

Antes de chegar a Sagres decido fazer uma paragem da Vila do Bispo. No pequeno centro da vila, paro junto à igreja e numa esplanada de um café, bebo uma coca-cola. Não vejo nenhum movimento, tanto de pessoas como de carros.

Decido deixar a muito sossegada Vila do Bispo e seguir caminho. Um pouco antes de chegar a Sagres, reparo numa linha pintada de azul na berma da estrada. De uma forma intercalada, a linha é preenchida pelo símbolo de uma bicicleta, e aí percebo do que se trata.

Esta linha azul é a indicação da conhecida Ecovia do Litoral – Algarve.

As Ecovias do Algarve são uma infra-estrutura vocacionada para a utilização preferencial de bicicleta. Inserem-se num esquema director definido para o Algarve, esquema esse que é constituído por 4 eixos principais: Ecovia do Litoral, Ecovia do Guadiana, Ecovia da Costa Vicentina e Ecovia do Interior.
A Ecovia do Litoral percorre todo o litoral do Algarve numa extensão de 214Km, desde o Cabo de S. Vicente (Vila do Bispo) – km zero – até Vila Real de S. António, atravessando 12 concelhos. O desenvolvimento do projecto resulta de uma parceria entre a Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL), a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve e o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade – Parque Natural da Ria Formosa.

In Ecovias do Algarve

No site acima também é possível ler que: “(…)A Ecovia do litoral tem um investimento associado de cerca de 4,3 milhões de euros, que são financiados a 75% por 3 tipos de programas(…)”. Eu não me vou alongar em comentários sobre esta ecovia. Apenas dizer que na minha opinião, investir 4,3 milhões de euros e no final pintarem uma lista azul na berma da estrada – a qual em certas partes da ecovia, com o imenso transito, já não se nota – parece-me muito pouco ou então a tinta azul é mais cara que as restantes!

Chego a Sagres pela via “azul” e rápido fico impressionado pela grandeza e imponência dos aglomerados de rocha. Aqui é o fim de Portugal…Numa praia estão várias surfistas enquanto outro grupo decidiu ficar pela esplanada de um bar, a conversar e a beber uma cerveja. Dou uma pequena localidade e gosto do que vejo. Respira-se sossego e bem-estar.

Reparo numa placa com indicações para a Fortaleza de Sagres e parece-me um bom local para almoçar as minhas duas sandes de leitão que a mulher do meu primo Sérgio, a Dora, me preparou esta manhã antes de partir de Lagos.

Na Fortaleza de Sagres a panorâmica da costa é deslumbrante, com destaque para as enseadas de Sagres; o cabo de São Vicente e a imensidão do Oceano Atlântico. A própria fortificação e as suas imediações, integradas no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, oferecem a possibilidade de um olhar próximo ao património natural da costa, especialmente no que se refere à flora, abrigando algumas das espécies mais representativas da região.

Quase sempre, uma refeição num restaurante que tem uma fantástica esplanada, sai caro, muito caro. Eu delicio-me com as duas sandes de leitão e com esta paisagem única e fantástica da minha própria esplanada para o Oceano Atlântico…e não pago nada por isso.

O almoço apesar de ser pequeno, dura imenso tempo. Descubro o mais que posso da Fortaleza e quando acabo a visita, sigo em direcção ao parque de campismo de Sagres. O parque fica localizado numa extensa planície mas bem protegido dos ventos fortes constantes, habituais nesta região, por uma densa mata. O preço é muito acessível e as condições são bastante razoáveis. O acesso wireless é mais uma vez limitado à esplanada do restaurante/bar.

Para amanhã de manhã fica agendado visita ao cabo de São Vicente e a assim “conquistar” mais um ponto histórico nesta viagem.

Até amanhã.

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1 de Maio de 2011

Acordo com o barulho que as gotas de chuva fazem ao bater na tenda. Por isso deixo-me ficar no quentinho do saco-cama e esperar que a chuva pare ou abrande.

Como a chuva não parece sequer abrandar, acabo por me pôr a pé e arrumar o material assim mesmo…à chuva. Hoje a etapa vai-me levar até Lagos onde vou ficar em casa de familiares.

Despeço-me mais uma vez do campismo de Albufeira: até à próxima.

Poucos quilómetros percorridos passo pela freguesia de Guia. Local muito conhecido pelo seu famoso frango assado. Se bem que o segredo que torna este ainda mais famoso por estas bandas está no molho com o qual é temperado o frango antes de ir a assar.

E é bem patente esta tradição; na localidade os restaurante que servem frango da guia multiplicam-se como ervas daninhas…até uma rotunda “enfeitada” com um frango existe por estas bandas. Digamos que o frango assado está para a freguesia de Guia, como o leitão está para a zona da Bairrada :).

Não fossem ainda cerca das 10h da manhã, ainda era menino de provar uma coxinha de frango da Guia.

Depois de 2h30m a pedalar estou a entrar na cidade de Lagos. A chuva cai cada vez com mais intensidade, deixando-me molhado da cabeça aos pés. Quando chego a casa do primo Sérgio, preciso de uma toalha para me secar antes de entrar em casa.

Ao entrar em casa cheira a assado no forno. Já tinha saudades deste ambiente tão peculiar e familiar de uma casa portuguesa ao fim-de-semana. E este domingo é especial: além de ser o Dia do Trabalhador, é o Dia da Mãe.

Depois de tomar uma banho quente que me devolveu algum conforto que a chuva e o frio me tinham levado, já estou sentado à mesa rodeado pela família do meu primo Sérgio e de muita comida.

O meu primo Sérgio à minha direita e o resto da família Algarvia

O resto do dia foi passado em família…a comer e a beber. E a bebida que se bebe mais por aqui é a aguardente de Medronho.

A aguardente de Medronho é uma bebida típica da região do distrito de Faro e o Medronheiro, árvore que produz o fruto medronho que depois de fermentado resulta numa aguardente, é uma espécie muito comum em toda a Península Ibérica. No entanto, é na região Algarvia que existe em abundância.

Os medronheiros crescem principalmente nas vertentes voltadas a norte das serras, por serem as mais húmidas. O seu fruto, uma drupa de forma esférica e cor vermelha quando madura, é colhida no Outono e dá origem ao famoso medronho de Monchique. Fruto a partir do qual se produz a aguardente de medronho.

A “Estila” é o fabrico da aguardente de medronho. A fruta é fermentada em tanques de madeira ou barro ou de cobre. Actualmente a fermentação também se faz em depósitos de cimento, mas só em destilarias de significativa dimensão. A fermentação é natural e dura entre trinta a sessenta dias. Os tanques devem ser cobertos com frutos esmagados para evitar o contacto com o ar. Depois de fermentado o produto deve ser guardado durante sessenta dias e bem protegido do ar.

Depois de um pesado almoço, esta aguardente mais doce que a aguardente de uvas, é um óptimo digestivo. E a partir do 5º shot já te parece limonada :P.

Até amanhã, hic…hic…

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30 de Abril de 2011

Depois de alguns dias muito bem passados em Faro, onde aproveitei para retocar a minha imagem pessoal, rapando o cabelo mais uma vez (já o tinha feito no início da viagem) era hora e dia de voltar à estrada. E para meu azar o céu escuro está de volta nesta manhã de sábado. Faço cerca de 10km e as nuvens começam a descarregar. É uma história já contada: muita chuva, vento e eu só pedalo.

E pedalo em direcção a Loulé, onde tencionava visitar a cidade, mas com este tempo, vai ser só de passagem. Quando chego a Loulé é dia de mercado, mas com estas condições meteorológicas, são poucas as pessoas que se atrevam a fazer compras. Eu sigo caminho e na impossibilidade de fazer um almoço ao ar livre, paro numa churrasqueira já à saída da cidade. Consigo deixar a bicicleta abrigada e sento-me à janela.

Dentro do restaurante cheira a frango assado e a fritos. E é precisamente o que eu peço para almoçar: um frango (sim…UM frango) assado e uma travessa de batatas fritas (a salada foi só para enfeitar a mesa). Que delícia…no final um café e deixo-me ficar um pouco até porque lá fora a chuva não dá sinais de abrandar.

Aproveito para consultar o meu mapa. Estou sensivelmente a meio caminho de Albufeira e como é um local que me traz boas recordações, é onde vou ficar hoje.

De volta à estrada molhada, pedalo até Albufeira e só paro quando encontro o campismo. Gostaria de ter feito um passeio à beira mar, mas assim só me resta montar a tenda e esperar que o tempo melhore. Este parque de campismo traz-me imensas recordações. Algumas já ténues, vividas com os meus pais. Outras, ainda frescas de umas férias com amigos de faculdade, vividas à cerca de 10 anos.

Foram umas férias fantásticas. Os tempos eram outros e estudantes quer éramos, partimos para o Algarve com um orçamento que seria colocado à prova todos os dias. Por isso a decisão de acamparmos foi unânime. Eu tinha uma tenda para duas pessoas, a qual partilhei com o Neves. O “Fafe” (João) que trazia com ele uma tenda do género militar, albergava os restantes: Fafe, Esdré (André) e o Pipo (Filipe).

Os dias eram passados na praia e à noite ou pelo campismo ou por duas ocasiões, no centro de Albufeira na zona dos bares.

Como histórias engraçadas, temos por exemplo a origem da nova alcunha que o Filipe ganhou no final das férias. Foi assim: logo no primeiro dia estava um dia de muito calor e era perto do meio-dia quando chegámos ao campismo e o que decidimos fazer depois, foi no mínimo, imprudente! “E que tal se fossemos à praia?”. Parece uma ideia boa, certo? Não quando é perto da uma hora, o sol está a pique e são cerca de 3km até à praia. Resultado: alguns de nós ficaram com algumas queimaduras do sol, em particular o Filipe nos pés…e assim ficou para a memória de todos nós, naquelas férias, o “Pipo pés cozidos”!.

Outra história engraçada aconteceu numa tarde em que decidimos ficar pela piscina do campismo. Enquanto nos abrigávamos debaixo de um chorão (salgueiro-chorão) do sol forte no princípio de tarde, ao nosso lado, um grupo de italianos entretinha-se com outros afazeres. Um deles “enrolava”, outro “distribuía” e o restante grupo dava umas “passas”. Para nosso azar (ou sorte) o vento empurrava o fumo que os italianos emanavam para o ar, precisamente na nossa direcção. Ora bem, depois de algum tempo a respirar aquele ar poluído, o Neves já se ria muito, mas mesmo muito :D. Aliás, todos nós de repente nos sentíamos muito alegres e bem dispostos. Foi um momento muito divertido e que ainda hoje, nos faz rir, mas desta vez em ambiente 100% ar puro.

Gostava de colocar aqui uma imagem daquelas férias, mas naquele tempo, a palavra digital ainda era pouco usada. E para terem uma ideia, a única máquina fotográfica que usámos, foi uma daquelas descartáveis que comprámos numa loja em Albufeira. Tempos diferentes…

Pelo menos quando me preparo para montar a tenda, a chuva deu tréguas. E depois de já estar instalado, dou uma volta pelo parque de campismo. Dizem que “recordar é viver” por isso sinto-me vivo e feliz pelo presente mas também por um passado que ali vivi, muito feliz.

Até amanhã.

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27 de Abril de 2011

Acordo do meu primeiro sono português e estou muito bem disposto. Os meus vizinhos de campismo, um casal de reformados de Lisboa, trocaram um apartamento no centro, por uma caravana com um super hiper mega avanço, o que faz com que no total tenham uma área de habitação maior do que muitos apartamentos que eu já conheci. É um casal muito simpático, pena que já esteja a arrumar as minhas coisas.

Depois do pequeno-almoço, despeço-me dos “lisboetas” e com mais um dia de sol, parto para mais um dia, o 2º em Portugal. O destino é a cidade capital do Algarve: Faro.

Estes primeiros quilómetros em Portugal trazem-me muitas recordações. Pedalo para já, na famosa estrada nacional 125 (N125) que percorre toda a costa algarvia. Sinceramente, julgava que o tráfego seria maior. Vou tendo alguns flashbacks ao passar por certos sítios, como um restaurante ao pé da estrada, que tenho quase a certeza já ter frequentado outrora. Tal como eu dizia, pedalar em Portugal seria diferente, não obrigatoriamente menos interessante mas diferente.

Levo duas ou três buzinadelas porque como vou muito distraído, desvio-me em demasia da berma. Tento concentrar-me um pouco mais na estrada.

A minha primeira paragem é em Tavira e para comer. Os sucessivos restaurantes perto da estrada, com frango assado para fora, deixaram-me perto de um ataque de “penas”. Já tive várias vezes em Tavira, a última delas apenas de passagem, aquando de umas férias em Marbelha. Logo, o interesse é meramente de matar a fome e seguir caminho.

Na esplanada de um café perto da Ria Formosa, sirvo-me de dois rissóis de carne e um fino :). Humm…é bom estar de volta. Enquanto devoro aquele pequeno miminho, estou atento às conversas em meu redor. Não porque gosto de ouvir a conversa dos outros, mas porque o sotaque algarvio é muito engraçado e estou num jogo em que as regras são bastante simples: tentar perceber o que aquela gente diz. O princípio é sempre muito fácil – quase todo o algarvio começa uma frase da seguinte maneira: “Escuta (…)” – o resto é que se torna mais complicado. O “não” transforma-se em “nã” e outras derivações deveras complexas são aplicadas em tempo real e de uma forma consecutiva. No final, julgo sair perdedor, pois de uma conversa de 20m, só consegui perceber que uma das pessoas estava desempregada e a outra que ontem tinha perdido um episódio da novela.

Depois do jogo, sigo o caminho e aproveito os restantes quilómetros até Faro para praticar o meu “algarvio” falado. Sei que foi um mini-curso intensivo de 15 minutos, mas tive atento a aula toda. “Escûta………Tû nã vês ca quêle moço ali, nã presta pra ser tê hóme!!!”. Acho que tenho uma vocação natural para isto :). Não me levem a mal algarvios, amanhã estou a brincar com o sotaque dos alentejanos e depois vêm os lisboetas…

Ao passar por Olhão, comunica à minha anfitriã onde estou. Sim, anfitriã. Em Espanha não pude escolher e saiu um meio espanhol meio inglês, mas agora estou em território nacional e já me oriento melhor. As ordens que recebo são de ir em direcção à casa dela.

Chego a Faro mesmo à hora do almoço e depois de alguns enganos, dou com o apartamento, localizado mesmo, mas mesmo em frente à estação de comboios de Faro, com vista para a Ria Formosa e para o aeroporto de Faro. É só movimento.

À minha anfitriã vamos chamar de…”Joaninha”, nome fictício. É uma grande amiga de Braga e para terem uma noção do tipo de pessoa que estamos a falar, as duas primeiras frases que ela me disse foram: 1ª frase: “E eu não bebo, cara%&#!!!” – isto num jantar de aniversário de uma amiga em comum, depois de eu ter servido vinho a algumas pessoas que eu conhecia e que estavam perto de mim; 2ª frase: “Só isto, fod#$$&?!?!” – isto depois de eu apenas ter, digamos, enchido 1/3 do copo da Joaninha. Como podem calcular, foi amor não à 1ª vista, mas sim, à 2ª frase :).

A Joaninha (faz que) trabalha na Universidade de Faro, como aluna de Pós-Doc. A menina é inteligente.

Pouco depois de eu chegar ao apartamento, chega ela e uma colega de laboratório. Depois dos “olás” e beijinhos, vamos os três almoçar ao Fórum Algarve – o shopping de Faro. o almoço é rápido, pois as meninas têm que voltar para a faculdade.

Já em casa, arrumo as minhas coisas e depois de um banho, deito-me no sofá. Está um belo dia de sol e talvez a praia merecesse uma visita, mas estou a gostar desta tarde em sossego, só interrompido pelo barulho dos comboios.

O resto da tarde é passada entre o programa de televisão “Tardes da Júlia” e sempre que um comboio chega, assomar à janela e ver aquele ritual de pessoas a sair e outras a entrar do comboio, para depois partir novamente até ao próximo destino.

Quando a Joaninha chegou, fomos às compras para o jantar. Uma das condições para eu poder ficar em casa dela, é que teria que cozinhar para ela. Mas como eu cozinho com e por prazer, acho que esta sociedade vai correr bem. Preparo uma das minhas especialidades: arroz de marisco. É justo referir que tive uma preciosa ajuda da minha assistente no corte da cebola. No final estava óptimo e o Muralhas não faltou a acompanhar o pitéu. A sobremesa foram morangos.

Ambos cansados, deixámos-nos ficar por casa depois do jantar. Mas não significa que não se beba um digestivo – martini com 7-Up – bebida predilecta de ambos.

E assim terminou o primeiro dia na capital do Algarve, muito bem passado e com a minha anfitriã a receber-me em casa dela com muito carinho. Obrigado :).

Até amanhã

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