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Archive for May 14th, 2011

4 de Maio de 2011

São as 5h50m da manhã e o telemóvel desperta-me. Hoje vou falar na rádio em directo, no programa do José Candeias na Antena1, que tem início às 6h. Mas o meu corpo não aguenta tamanha brutalidade que é acordar tão cedo e volto a dormir sem eu dar por isso. Acordo cerca de 30m depois, mas desta vez não é o despertador do telemóvel, mas a própria chamada do José Candeias para entrar em directo. Tento acordar e ter uma postura o mais parecida com alguém que esta super acordado e super bem disposto. Alguns instantes depois estou a falar com José Candeias e com mais dois ciclo-turistas portugueses a partir do Peru. A minha participação no programa, resume-se basicamente a uma muito breve apresentação do projecto 2B’s e pouco mais. Foi pouco, mas foi uma experiência diferente e espero voltar a falar em directo na rádio.

Podem constatar o meu estado sonolento na área que criei para todas as minhas “aparições” nos meio de comunicação social (os media), em:
https://intotheroad.net/2bs/media

Depois do meu momento de estrela de rádio, fico um pouco excitado e como tenho uma longa etapa pela minha frente, decido em vez de voltar a dormir, começar a arrumar as coisas. Ainda não são as 9h da manhã e já estou a pedalar.

A manhã de hoje estava reservada para visitar o cabo de São Vicente. Do campismo de Sagres onde passei a noite, foi uma curta viagem. No cabo, existe o farol do cabo de São Vicente. O actual farol foi construído por ordens de D.Maria II em 1835 e inaugurado por D.Fernando. Já sofrei várias obras de remodelação e beneficiação, tendo um alcance, nos dias de hoje de 33 milhas (~60km).

Mas só pode ver o farol de longe pois o portão da muralha que o guarda estava fechado – o horário de abertura começava às 10h.

Como o local estava quase deserto, apenas aproveitei para tirar algumas fotografias ao cabo de São Vicente e seguir caminho. Pouco depois já pedalava com uma direcção completamente diferente: norte era agora o rumo que eu seguia.

À medida que ia pedalando, ia notando que a paisagem estava a mudar. Até a estrada parecia diferente. O Algarve estava a dar lugar ao Alentejo e eu estava feliz. Mas é um Alentejo diferente do qual eu sempre imagino. Não é aquele Alentejo de grandes planícies douradas de cereal ou campos de oliveiras e sobreiros. Este Alentejo que eu percorro, o do litoral, é verde e montanhoso. Está um dia de muito calor, mas as árvores que parecem abraçar a estrada, mantém quase sempre a estrada numa fresca sombra.

Apesar do vento forte, estou a desfrutar imenso o princípio do dia de hoje. Um dia que vai ser longo pois tenho como meta, Vila Nova de Milfontes, onde uma pessoa do Warmshowers, aceitou abrir as portas de sua casa para mim.

Mas não vou minimamente a pensar no que ainda me resta pedalar, tal é o prazer que estou a ter em cada quilómetro que percorro. Passo por pequenas localidades onde curiosamente encontro várias lojas ligadas ao Surf. E não é com surpresa que começam a passar por mim automóveis transportando no tejadilhos pranchas de surf. As praias por aqui devem ter boas ondas…

Chego a Aljezur perto do início da hora do almoço. Já levo quase meia etapa percorrido e decido parar para almoçar. Numa agradável esplanada bem protegida do sol, sento-me e peço uns filetes de pescada com arroz de tomate. Bebo duas coca-cola e no final um café bem forte, porque isto de acordar pouco depois das 06h, não é fácil.

Volto à estrada e pouco depois tenho um inesperado encontro com uns seres muito simpáticos. É uma manada de burros e…um cavalo que passeiem tranquilamente num terreno vedado mesmo ao lado da estrada. Não hesito e paro mesmo junto à vedação.

Estão todos muito bem cuidados e parecem estar familiarizados com as pessoas, porque mal se apercebem que alguém está por perto, começam todos a virem em direcção a mim. A quase 1 metro de distância e apenas uma vedação em arame a separar-me daquele simpático grupo de animais, não sinto qualquer tipo de receio e aproximo-me ainda mais, ao ponto de poder fazer algumas festas aos burros que se vão “atropelando” para tentarem a sorte e até o cavalo se mostra um animal super dócil. Foi um momento muito especial.

É com alguma tristeza que digo adeus aos meus novos amigos. Por momentos senti que não estava sozinho na viagem e foi bom sentir que eles também gostaram que eu tivesse parado :).

O dia já vai longo, mas Vila Nova de Milfontes ainda não está perto. As subidas já as enfrento e as ultrapasso com alguma dificuldade. O calor continua a fazer-se sentir e estou prestes a ficar sem água. Mas mentalizo-me que tenho que continuar e que vou conseguir atingir o objectivo que tracei para este dia. Podem achar que está errado, sentir-me cansado e querer continuar. Eu chamo-lhe determinação, vontade e espírito de sacrifício. E sempre há uma ou outra descida para animar o pessoal :).

Já ultrapassei a barreira dos 100km percorridos e com as forças a fugir, o vento que sopra parece ganhar força. Mas continuo a pedalar…até chegar! São perto das 16h30 quando chego às portas da vila. Já cá tinha estado duas vezes, mas nunca tinha ficado tão contente por ter chegado. Mas a felicidade de ter chegado é abalada por um mal estar que bem aumentado desde uns quilómetros. O primeiro café que encontro paro e sinto-me zonzo. Sento-me e a cabeça pesa-me, estou com tremores e suores frios. Posso perceber pouco de saúde, mas sei que estou a ter uma quebra de açúcar. Peço uma coca-cola; nem deu para lhe sentir o sabor. Peço uma segunda coca-cola e uma tosta-mista. Passado alguns minutos começa a sentir melhores e pouco depois posso dizer que estou recuperado. Agora ficaram as imensas dores musculares, mas para isso, só o descanso.

O meu anfitrião só está disponível a partir das 19h. Aproveita então para dar uma pequena volta pela vila. Parece estar tudo mais ou menos igual aquando da minha última visita.

À hora marcada estou à porta de casa do meu anfitrião e ele pouco depois abre-me a porta. Sylvain Griot é um jovem de França, da cidade de Paris, que trabalha para uma empresa de produção e colocação de relvados em grande escala, como por exemplo em estádios de futebol. Vive em Vila Nova de Milfontes à cerca de 2 anos. É vegetariano e gosta tanto de viver nesta vila que pondera daqui a 1 ano ficar por cá, altura em que o projecto dele em Portugal acaba.

Ele tem um compromisso pelo que me deixa as chaves de casa e antes de sair diz-me para ficar completamente à vontade e que não conte com ele para jantar. Engraçado este jovem francês :).

Depois de tomar banho e arrumar as minhas coisas saio para jantar. De outras visitas conheço uma bela tasca na avenida que dá acesso ao centro. Está uma noite agradável e a vila ainda não tem aquela azáfama de jovens e turistas da época plena de verão.

Depois de um saboroso prato de frango assado, dou um pequeno passeio pela vila, para depois regressar a casa. Foi um dia muito longo e em termos físicos estou bastante cansado. Mais do que nunca, hoje preciso realmente de descanso.

Até amanhã

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