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3 de Maio de 2011

Foram dois dias em família, onde posso dizer que tirei a barriga de misérias. O meu primo Sérgio e o resto da família, preocuparam-se em garantir que nada me faltava – quer atenção, quer muita comida – e eu não me fiz rogado.

Fica a promessa de voltar, noutras condições e ficar por mais dias. Por isso ainda não me despedi e já estou com saudades.

O plano para hoje é chegar a Sagres e conquistar mais um ponto épico: o Cabo de São Vincente, o ponto mais a sudoeste do continente europeu. Deste ponto vai ser sempre pedalar com direcção a norte, ora pela costa, ora por regiões mais interiores do continente.

Hoje não chove e pude ver na televisão que as previsões meteorológicas para os próximos dias é de ausência de chuva. Nice…

Despeço-me dos meus anfitriões em Lagos, mas o meu primo Sérgio faz questão de mostrar a saída da cidade, com o carro de “empresa” dele…um carro da Polícia :). É a primeira vez que tenho direito a escolta policial nesta viagem…e na minha vida.

Sigo pela estrada nacional 125 que atravessa todo o Algarve. Mas noto que à medida que deixo Lagos para trás, o trânsito é muito pouco e a paisagem é dominada por zonas rurais.

Antes de chegar a Sagres decido fazer uma paragem da Vila do Bispo. No pequeno centro da vila, paro junto à igreja e numa esplanada de um café, bebo uma coca-cola. Não vejo nenhum movimento, tanto de pessoas como de carros.

Decido deixar a muito sossegada Vila do Bispo e seguir caminho. Um pouco antes de chegar a Sagres, reparo numa linha pintada de azul na berma da estrada. De uma forma intercalada, a linha é preenchida pelo símbolo de uma bicicleta, e aí percebo do que se trata.

Esta linha azul é a indicação da conhecida Ecovia do Litoral – Algarve.

As Ecovias do Algarve são uma infra-estrutura vocacionada para a utilização preferencial de bicicleta. Inserem-se num esquema director definido para o Algarve, esquema esse que é constituído por 4 eixos principais: Ecovia do Litoral, Ecovia do Guadiana, Ecovia da Costa Vicentina e Ecovia do Interior.
A Ecovia do Litoral percorre todo o litoral do Algarve numa extensão de 214Km, desde o Cabo de S. Vicente (Vila do Bispo) – km zero – até Vila Real de S. António, atravessando 12 concelhos. O desenvolvimento do projecto resulta de uma parceria entre a Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL), a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve e o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade – Parque Natural da Ria Formosa.

In Ecovias do Algarve

No site acima também é possível ler que: “(…)A Ecovia do litoral tem um investimento associado de cerca de 4,3 milhões de euros, que são financiados a 75% por 3 tipos de programas(…)”. Eu não me vou alongar em comentários sobre esta ecovia. Apenas dizer que na minha opinião, investir 4,3 milhões de euros e no final pintarem uma lista azul na berma da estrada – a qual em certas partes da ecovia, com o imenso transito, já não se nota – parece-me muito pouco ou então a tinta azul é mais cara que as restantes!

Chego a Sagres pela via “azul” e rápido fico impressionado pela grandeza e imponência dos aglomerados de rocha. Aqui é o fim de Portugal…Numa praia estão várias surfistas enquanto outro grupo decidiu ficar pela esplanada de um bar, a conversar e a beber uma cerveja. Dou uma pequena localidade e gosto do que vejo. Respira-se sossego e bem-estar.

Reparo numa placa com indicações para a Fortaleza de Sagres e parece-me um bom local para almoçar as minhas duas sandes de leitão que a mulher do meu primo Sérgio, a Dora, me preparou esta manhã antes de partir de Lagos.

Na Fortaleza de Sagres a panorâmica da costa é deslumbrante, com destaque para as enseadas de Sagres; o cabo de São Vicente e a imensidão do Oceano Atlântico. A própria fortificação e as suas imediações, integradas no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, oferecem a possibilidade de um olhar próximo ao património natural da costa, especialmente no que se refere à flora, abrigando algumas das espécies mais representativas da região.

Quase sempre, uma refeição num restaurante que tem uma fantástica esplanada, sai caro, muito caro. Eu delicio-me com as duas sandes de leitão e com esta paisagem única e fantástica da minha própria esplanada para o Oceano Atlântico…e não pago nada por isso.

O almoço apesar de ser pequeno, dura imenso tempo. Descubro o mais que posso da Fortaleza e quando acabo a visita, sigo em direcção ao parque de campismo de Sagres. O parque fica localizado numa extensa planície mas bem protegido dos ventos fortes constantes, habituais nesta região, por uma densa mata. O preço é muito acessível e as condições são bastante razoáveis. O acesso wireless é mais uma vez limitado à esplanada do restaurante/bar.

Para amanhã de manhã fica agendado visita ao cabo de São Vicente e a assim “conquistar” mais um ponto histórico nesta viagem.

Até amanhã.

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1 de Maio de 2011

Acordo com o barulho que as gotas de chuva fazem ao bater na tenda. Por isso deixo-me ficar no quentinho do saco-cama e esperar que a chuva pare ou abrande.

Como a chuva não parece sequer abrandar, acabo por me pôr a pé e arrumar o material assim mesmo…à chuva. Hoje a etapa vai-me levar até Lagos onde vou ficar em casa de familiares.

Despeço-me mais uma vez do campismo de Albufeira: até à próxima.

Poucos quilómetros percorridos passo pela freguesia de Guia. Local muito conhecido pelo seu famoso frango assado. Se bem que o segredo que torna este ainda mais famoso por estas bandas está no molho com o qual é temperado o frango antes de ir a assar.

E é bem patente esta tradição; na localidade os restaurante que servem frango da guia multiplicam-se como ervas daninhas…até uma rotunda “enfeitada” com um frango existe por estas bandas. Digamos que o frango assado está para a freguesia de Guia, como o leitão está para a zona da Bairrada :).

Não fossem ainda cerca das 10h da manhã, ainda era menino de provar uma coxinha de frango da Guia.

Depois de 2h30m a pedalar estou a entrar na cidade de Lagos. A chuva cai cada vez com mais intensidade, deixando-me molhado da cabeça aos pés. Quando chego a casa do primo Sérgio, preciso de uma toalha para me secar antes de entrar em casa.

Ao entrar em casa cheira a assado no forno. Já tinha saudades deste ambiente tão peculiar e familiar de uma casa portuguesa ao fim-de-semana. E este domingo é especial: além de ser o Dia do Trabalhador, é o Dia da Mãe.

Depois de tomar uma banho quente que me devolveu algum conforto que a chuva e o frio me tinham levado, já estou sentado à mesa rodeado pela família do meu primo Sérgio e de muita comida.

O meu primo Sérgio à minha direita e o resto da família Algarvia

O resto do dia foi passado em família…a comer e a beber. E a bebida que se bebe mais por aqui é a aguardente de Medronho.

A aguardente de Medronho é uma bebida típica da região do distrito de Faro e o Medronheiro, árvore que produz o fruto medronho que depois de fermentado resulta numa aguardente, é uma espécie muito comum em toda a Península Ibérica. No entanto, é na região Algarvia que existe em abundância.

Os medronheiros crescem principalmente nas vertentes voltadas a norte das serras, por serem as mais húmidas. O seu fruto, uma drupa de forma esférica e cor vermelha quando madura, é colhida no Outono e dá origem ao famoso medronho de Monchique. Fruto a partir do qual se produz a aguardente de medronho.

A “Estila” é o fabrico da aguardente de medronho. A fruta é fermentada em tanques de madeira ou barro ou de cobre. Actualmente a fermentação também se faz em depósitos de cimento, mas só em destilarias de significativa dimensão. A fermentação é natural e dura entre trinta a sessenta dias. Os tanques devem ser cobertos com frutos esmagados para evitar o contacto com o ar. Depois de fermentado o produto deve ser guardado durante sessenta dias e bem protegido do ar.

Depois de um pesado almoço, esta aguardente mais doce que a aguardente de uvas, é um óptimo digestivo. E a partir do 5º shot já te parece limonada :P.

Até amanhã, hic…hic…

30 de Abril de 2011

Depois de alguns dias muito bem passados em Faro, onde aproveitei para retocar a minha imagem pessoal, rapando o cabelo mais uma vez (já o tinha feito no início da viagem) era hora e dia de voltar à estrada. E para meu azar o céu escuro está de volta nesta manhã de sábado. Faço cerca de 10km e as nuvens começam a descarregar. É uma história já contada: muita chuva, vento e eu só pedalo.

E pedalo em direcção a Loulé, onde tencionava visitar a cidade, mas com este tempo, vai ser só de passagem. Quando chego a Loulé é dia de mercado, mas com estas condições meteorológicas, são poucas as pessoas que se atrevam a fazer compras. Eu sigo caminho e na impossibilidade de fazer um almoço ao ar livre, paro numa churrasqueira já à saída da cidade. Consigo deixar a bicicleta abrigada e sento-me à janela.

Dentro do restaurante cheira a frango assado e a fritos. E é precisamente o que eu peço para almoçar: um frango (sim…UM frango) assado e uma travessa de batatas fritas (a salada foi só para enfeitar a mesa). Que delícia…no final um café e deixo-me ficar um pouco até porque lá fora a chuva não dá sinais de abrandar.

Aproveito para consultar o meu mapa. Estou sensivelmente a meio caminho de Albufeira e como é um local que me traz boas recordações, é onde vou ficar hoje.

De volta à estrada molhada, pedalo até Albufeira e só paro quando encontro o campismo. Gostaria de ter feito um passeio à beira mar, mas assim só me resta montar a tenda e esperar que o tempo melhore. Este parque de campismo traz-me imensas recordações. Algumas já ténues, vividas com os meus pais. Outras, ainda frescas de umas férias com amigos de faculdade, vividas à cerca de 10 anos.

Foram umas férias fantásticas. Os tempos eram outros e estudantes quer éramos, partimos para o Algarve com um orçamento que seria colocado à prova todos os dias. Por isso a decisão de acamparmos foi unânime. Eu tinha uma tenda para duas pessoas, a qual partilhei com o Neves. O “Fafe” (João) que trazia com ele uma tenda do género militar, albergava os restantes: Fafe, Esdré (André) e o Pipo (Filipe).

Os dias eram passados na praia e à noite ou pelo campismo ou por duas ocasiões, no centro de Albufeira na zona dos bares.

Como histórias engraçadas, temos por exemplo a origem da nova alcunha que o Filipe ganhou no final das férias. Foi assim: logo no primeiro dia estava um dia de muito calor e era perto do meio-dia quando chegámos ao campismo e o que decidimos fazer depois, foi no mínimo, imprudente! “E que tal se fossemos à praia?”. Parece uma ideia boa, certo? Não quando é perto da uma hora, o sol está a pique e são cerca de 3km até à praia. Resultado: alguns de nós ficaram com algumas queimaduras do sol, em particular o Filipe nos pés…e assim ficou para a memória de todos nós, naquelas férias, o “Pipo pés cozidos”!.

Outra história engraçada aconteceu numa tarde em que decidimos ficar pela piscina do campismo. Enquanto nos abrigávamos debaixo de um chorão (salgueiro-chorão) do sol forte no princípio de tarde, ao nosso lado, um grupo de italianos entretinha-se com outros afazeres. Um deles “enrolava”, outro “distribuía” e o restante grupo dava umas “passas”. Para nosso azar (ou sorte) o vento empurrava o fumo que os italianos emanavam para o ar, precisamente na nossa direcção. Ora bem, depois de algum tempo a respirar aquele ar poluído, o Neves já se ria muito, mas mesmo muito :D. Aliás, todos nós de repente nos sentíamos muito alegres e bem dispostos. Foi um momento muito divertido e que ainda hoje, nos faz rir, mas desta vez em ambiente 100% ar puro.

Gostava de colocar aqui uma imagem daquelas férias, mas naquele tempo, a palavra digital ainda era pouco usada. E para terem uma ideia, a única máquina fotográfica que usámos, foi uma daquelas descartáveis que comprámos numa loja em Albufeira. Tempos diferentes…

Pelo menos quando me preparo para montar a tenda, a chuva deu tréguas. E depois de já estar instalado, dou uma volta pelo parque de campismo. Dizem que “recordar é viver” por isso sinto-me vivo e feliz pelo presente mas também por um passado que ali vivi, muito feliz.

Até amanhã.

27 de Abril de 2011

Acordo do meu primeiro sono português e estou muito bem disposto. Os meus vizinhos de campismo, um casal de reformados de Lisboa, trocaram um apartamento no centro, por uma caravana com um super hiper mega avanço, o que faz com que no total tenham uma área de habitação maior do que muitos apartamentos que eu já conheci. É um casal muito simpático, pena que já esteja a arrumar as minhas coisas.

Depois do pequeno-almoço, despeço-me dos “lisboetas” e com mais um dia de sol, parto para mais um dia, o 2º em Portugal. O destino é a cidade capital do Algarve: Faro.

Estes primeiros quilómetros em Portugal trazem-me muitas recordações. Pedalo para já, na famosa estrada nacional 125 (N125) que percorre toda a costa algarvia. Sinceramente, julgava que o tráfego seria maior. Vou tendo alguns flashbacks ao passar por certos sítios, como um restaurante ao pé da estrada, que tenho quase a certeza já ter frequentado outrora. Tal como eu dizia, pedalar em Portugal seria diferente, não obrigatoriamente menos interessante mas diferente.

Levo duas ou três buzinadelas porque como vou muito distraído, desvio-me em demasia da berma. Tento concentrar-me um pouco mais na estrada.

A minha primeira paragem é em Tavira e para comer. Os sucessivos restaurantes perto da estrada, com frango assado para fora, deixaram-me perto de um ataque de “penas”. Já tive várias vezes em Tavira, a última delas apenas de passagem, aquando de umas férias em Marbelha. Logo, o interesse é meramente de matar a fome e seguir caminho.

Na esplanada de um café perto da Ria Formosa, sirvo-me de dois rissóis de carne e um fino :). Humm…é bom estar de volta. Enquanto devoro aquele pequeno miminho, estou atento às conversas em meu redor. Não porque gosto de ouvir a conversa dos outros, mas porque o sotaque algarvio é muito engraçado e estou num jogo em que as regras são bastante simples: tentar perceber o que aquela gente diz. O princípio é sempre muito fácil – quase todo o algarvio começa uma frase da seguinte maneira: “Escuta (…)” – o resto é que se torna mais complicado. O “não” transforma-se em “nã” e outras derivações deveras complexas são aplicadas em tempo real e de uma forma consecutiva. No final, julgo sair perdedor, pois de uma conversa de 20m, só consegui perceber que uma das pessoas estava desempregada e a outra que ontem tinha perdido um episódio da novela.

Depois do jogo, sigo o caminho e aproveito os restantes quilómetros até Faro para praticar o meu “algarvio” falado. Sei que foi um mini-curso intensivo de 15 minutos, mas tive atento a aula toda. “Escûta………Tû nã vês ca quêle moço ali, nã presta pra ser tê hóme!!!”. Acho que tenho uma vocação natural para isto :). Não me levem a mal algarvios, amanhã estou a brincar com o sotaque dos alentejanos e depois vêm os lisboetas…

Ao passar por Olhão, comunica à minha anfitriã onde estou. Sim, anfitriã. Em Espanha não pude escolher e saiu um meio espanhol meio inglês, mas agora estou em território nacional e já me oriento melhor. As ordens que recebo são de ir em direcção à casa dela.

Chego a Faro mesmo à hora do almoço e depois de alguns enganos, dou com o apartamento, localizado mesmo, mas mesmo em frente à estação de comboios de Faro, com vista para a Ria Formosa e para o aeroporto de Faro. É só movimento.

À minha anfitriã vamos chamar de…”Joaninha”, nome fictício. É uma grande amiga de Braga e para terem uma noção do tipo de pessoa que estamos a falar, as duas primeiras frases que ela me disse foram: 1ª frase: “E eu não bebo, cara%&#!!!” – isto num jantar de aniversário de uma amiga em comum, depois de eu ter servido vinho a algumas pessoas que eu conhecia e que estavam perto de mim; 2ª frase: “Só isto, fod#$$&?!?!” – isto depois de eu apenas ter, digamos, enchido 1/3 do copo da Joaninha. Como podem calcular, foi amor não à 1ª vista, mas sim, à 2ª frase :).

A Joaninha (faz que) trabalha na Universidade de Faro, como aluna de Pós-Doc. A menina é inteligente.

Pouco depois de eu chegar ao apartamento, chega ela e uma colega de laboratório. Depois dos “olás” e beijinhos, vamos os três almoçar ao Fórum Algarve – o shopping de Faro. o almoço é rápido, pois as meninas têm que voltar para a faculdade.

Já em casa, arrumo as minhas coisas e depois de um banho, deito-me no sofá. Está um belo dia de sol e talvez a praia merecesse uma visita, mas estou a gostar desta tarde em sossego, só interrompido pelo barulho dos comboios.

O resto da tarde é passada entre o programa de televisão “Tardes da Júlia” e sempre que um comboio chega, assomar à janela e ver aquele ritual de pessoas a sair e outras a entrar do comboio, para depois partir novamente até ao próximo destino.

Quando a Joaninha chegou, fomos às compras para o jantar. Uma das condições para eu poder ficar em casa dela, é que teria que cozinhar para ela. Mas como eu cozinho com e por prazer, acho que esta sociedade vai correr bem. Preparo uma das minhas especialidades: arroz de marisco. É justo referir que tive uma preciosa ajuda da minha assistente no corte da cebola. No final estava óptimo e o Muralhas não faltou a acompanhar o pitéu. A sobremesa foram morangos.

Ambos cansados, deixámos-nos ficar por casa depois do jantar. Mas não significa que não se beba um digestivo – martini com 7-Up – bebida predilecta de ambos.

E assim terminou o primeiro dia na capital do Algarve, muito bem passado e com a minha anfitriã a receber-me em casa dela com muito carinho. Obrigado :).

Até amanhã

26 de Abril de 2011

Hoje o 2b’s faz anos, quer dizer faz meses. Mais precisamente 1 mês.

Está de parabéns o 2b’s, onde incluo Eu e a bicicleta. Foi um mês inteiro de grandes aventuras; muitas histórias para contar – umas boas, outras más – aos netos (e não só); muitos sítios, aldeias, vilas, cidades que visitei e muitas pessoas que conheci. Em termos de quilómetros, já percorri cerca de 1700km. Que venha mais um mês :).

Depois de um belo serão ontem na companhia do José e da sua família, hoje era dia de despedidas. E o dia comecei bem cedo. A mulher do José – grávida de quase 3 meses – tinha uma consulta com o médico: hoje iam saber se era uma menina ou um menino. Estava visivelmente nervosos e ao mesmo tempo muito felizes. O pequeno-almoço foi 100% british – ovos mexidos, torradas, feijão cozido em molho de tomate e salsicha fresca – o habitual e sempre muito saboroso e poderoso pequeno-almoço Inglês.

Antes das despedidas, tempo ainda para uma fotografia de família. Foi a minha primeira experiência como convidado numa casa de alguém da comunidade Warmshowers e penso que não poderia ter corrido melhor. Fiquei fã.

Hoje é um dia especial por um outro motivo: hoje chego a Portugal :). E sinceramente, já tenho saudades. Vai ser bom poder de novo falar no meu idioma e deixar o “portunhol” que já estava uns níveis bem acima do nosso caríssimo primeiro-ministro; vai ser bom visitar um país que de certo ainda tem muitos sítios para eu conhecer e mesmo aqueles que já conheço, agora fazê-lo a pedalar. Certamente será no mínimo, bem diferente.

Mas antes de Portugal ainda tenho que deixar Espanha. E em conversa ontem com o meu anfitrião José, a melhor maneira de o fazer é seguir em direcção a Ayamonte e daí apanhar o ferry para a outra margem do rio Guadiana, onde já é território luso.

Já não consigo pensar em mais nada que não seja o regresso a Portugal. Talvez por isso, sigo a bom ritmo e até a Ayamonte não faço nenhum paragem.

E quando chego ao meu último destino espanhol, posso dizer que a localidade está à altura do acontecimento. Ayamonte é uma bela cidade à beira rio plantada, com ruas enfeitas com palmeiras e árvores de todo o tipo. Numa praça central, velhos e novos sentados em bancos de pedra, conversam animadamente. Ainda não o referi, mas hoje o dia é de sol, contrariando assim, o que tem sido os últimos dias.

Sento-me numa esplanada e bebo a minha última coca-cola espanhola. O passo seguinte é descobrir o local onde parte o ferry. Não é longe, mas antes de ir para o local, dou um pequeno passeio por Ayamonte e tiro as últimas fotografias de Espanha.

Depois do passeio e das fotografias está na hora. A frequência de viagens é de 30m, por isso não tenho que esperar muito. O ferry tem capacidade para cerca de meia-dúzia de carros e hoje em particular, capacidade também para uma bicicleta. O rio está tranquilo, logo eu estou tranquilo.

A viagem é agradável. O céu está limpo e o sol brilha. Cheira a peixe e a combustível. O ferry desloca-se para sul, na diagonal e não a direito como eu pensava. Prolongando assim a viagem mas que mesmo assim, não demora mais de 15m. É pena, pois estava a desfrutar.

Olá Portugal – é bom estar de volta.

Ainda pensei fazer como já vi por várias ocasiões o Santo Papa fazer quando chega a um país, beijar o chão mas…fiquei apenas muito feliz por estar de volta ao meu país são e salvo. Na minha imaginação, cheguei a imaginar que estariam pessoas à minha espera, com cartazes, tal e qual como se tivesse regressado de participar numa missão de paz num país, supostamente em conflito, onde o maior perigo que passei, foi o perigo que representava a navalha com lamina de 20cm que usava na cozinha para descascar as batatas para o resto do pelotão.

Já nas ruas de Vila Real de Santo António (VRSA) fico admirado pelo número enorme de matriculas portuguesas. Acho que isto de ter estado mais de um mês em Espanha, vai demorar a passar. Falta o click. E a minha cara quando vejo a praça de táxis. Que anjinho! É claro que os senhores táxistas olhavam para mim com alguma desconfiança – é que a bandeira portuguesa pendurada na bicicleta não enganava – “Quanto tempo teve este jovem fora do país?”, pensariam eles :).

Aos poucos ia enchendo os pulmões com ar português e com isso as atitudes e reacções sem nexo, iam desaparecendo. Dou um pequeno passeio por VRSA e decido seguir caminho. Em Monte Gordo, logo ali ao lado, há um parque de campismo municipal onde vou passar esta noite. VRSA fica na história desta viagem, como a primeira cidade portuguesa que visito.

Até Monte Gordo é “um tirinho” de duas rodas. E ao fazer check-in no campismo tenho a primeira sensação de satisfação por já estar em Portugal: 5€ pela estadia. Nice…

Eu sei que foram inúmeras, as vezes que acampei em Espanha, mas enquanto procuro por um lugar no parque para montar a tenda, as sensações e emoções são outras. É nostalgia e saudades.

Quando ainda tinha idade em que eram os meus pais que decidiam para onde e como seriam as férias, eles optavam muitas vezes ao Algarve e fazer uma espécie de rally dos campismos. As estadias nos vários campismos onde ficávamos, durava entre 3 a 4 noites. Íamos à praia, passeávamos pela cidade e desfrutávamos do tempo passado em família. Hoje reparo que os filhos passam pouco tempo com os pais e em família, e talvez isso seja devido e serem tempos diferente, de uma educação diferente…o que sei, sem a mínima dúvida, é que tive grandes férias de verão com o meu irmão e os meus pais. E talvez decida que é tempo de o voltar a fazer.

Até amanhã.

25 de Abril de 2011

Através da comunidade Warmshowers consegui um anfitrião na cidade de Aljaraque, mesmo ao lado de Huelva. Por isso parto de Sevilha, com a certeza de que finalmente vou ficar em casa de locais e poder partilhar as minhas aventuras.

O dia de hoje tinha reservado uma surpresa, de ordem climática: nevoeiro. Já tinha enfrentado dias de sol muito quentes; chuva e vento forte; granizo…e agora pedalava pelo nevoeiro adentro.

Por causa da má visibilidade, ligo a luz traseira. Não é muito forte mas deve ser o suficiente para os automóveis não me acertarem.

Com mais uma mudança no clima lembro-me de um aspecto curioso neste, quase a completar, um mês de viagem: NUNCA TIVE DOENTE!

Eu sei que não é assim um período tão longo, mas se tivermos em conta, por exemplo, as condições climatéricas que tenho enfrentado nos últimos dias – chuvas fortes que faz com que por vezes não consiga manter a roupa e calçado secos durante todo o dia – é algo espantoso.

Julgo vivermos numa sociedade cada vez mais “hipocondríaca”, onde a auto-medicação é uma prática tomada como normal e muitas das vezes com leviandade, ou ao mínimo sintoma vamos a correr para a mais próxima farmácia ou hospital. E se falarmos então das crianças, o caso torna-se ainda mais grave. Na Holanda as crianças, desde os seus primeiros meses de vida, viajam com os seus pais na bicicleta, quer faça sol ou chuva, quer faça calor ou frio; e no final, no geral, os holandeses raramente estão doentes e quando o estão, ficam em casa a repousar e a ida ao hospital é só considerada em último caso.

Não sei se o meu caso é sorte, mas a verdade é que dizem que para garantir um bom sistema imunitário para proteger o nosso organismo de agentes invasores e prejudiciais, é importante termos hábitos alimentares saudáveis: SIM; actividade física regular: 1600km no último mês; exposição ao meio ambiente que nos rodeia: 2/3 dos meus dias são passados ao ar livre. Bem vistas as coisas…acho que não é sorte :).

Mas voltemos ao dia de hoje. O nevoeiro entretanto esfumou-se e deu lugar ao sol, apesar de um céu algo nublado. Está um dia calmo na estrada, com poucos carros e poucas pessoas na rua ou nos campos agrícolas.

Passo por uma localidade cujo nome não fixei.
O que ficou fixado na minha memória foram umas muralhas que se erguiam mesmo no centro da localidade. Algumas partes da muralha já não existiam, dando uma outra sensação de estarmos realmente, perante uma construção muito antiga que o passar dos anos não conseguir por completo, destruir.

Estou quase a chegar a Huelva quando passo uma enorme unidade industrial. Pelo que consigo ver da estrada, é uma fábrica de transformação de madeira. Enormes montes do que eu julgo ser serrim, amontoam-se uns atrás dos outros. A empresa chama-se Ence e dedica-se à produção de celulose e energia conseguida da biomassa cultivada. A Ence gera uma área total de cerca de 116 mil hectares de florestas espalhadas por Espanha, Portugal e Uruguai. Para aqueles que estão a pensar: “Chiça. Isso é muita floresta!”, não se pensarmos que a floresta da Amazónia tem uma área de 5,5 milhões de km² :|.

Pouco depois chego a Huelva onde também chegaram as nuvens muito cinzentas.O meu anfitrião está disponível a partir das 17h, por isso vou parar para almoçar e descansar um pouco depois de já ter pedalado cerca de 90km. “Que máquina”.

Depois do almoço e como ainda estamos longe da hora, vou até a um café mesmo ao lado do cais portuário. Estou tão perto que do lugar de onde estou sentado, consigo ver com clareza, a operação de descarga de um navio de carga. Ver aquela grua gigante fixa ao solo, a manusear os enormes contentores como se fossem de papel, é impressionante. Peço um café e relaxo. Entretanto começa a chover.

O tempo passa e rápido e já é perto das 17h. Vou telefonar ao meu anfitrião, o José. A casa do José fica em Aljaraque, uma cidade a cerca de 10km do centro de Huelva e para chegar lá, tenho que atravessar uma ponte. Do lado de lá, o José espera por mim, numa loja Leroy Merlin.

Feitas as apresentações rápidas, porque a chuva está cada vez mais forte, ele dá-me as indicações para chegar até casa dele. O José e a sua família moram numa casa de um andar, bem no meio do nada. Uma estrada em terra atravessa uns campos e termina na mini-quinta do José, da sua mulher que está grávida de 12 semanas e do filho de 2 anos. Sou recebido de uma forma extraordinária: não me sinto um estranho que mal acabou de entrar na casa deles. São pessoas simples e sinto-me completamente à vontade e muito bem vindo ao seio daquela família.

José é meio espanhol e meio inglês, fruto de uma relação entre um espanhol e uma mulher de terras de sua Majestade. A sua mulher é 100% British. Ele depois de estudar Engenharia Informática (que grande coincidência), chegou a um ponto dos estudos que se apercebeu que não estava a seguir o caminho que mais lhe agradava e decidiu mudar o rumo. Emigrou para a Espanha e do nada, entrou para a indústria do morango. Hoje trabalha para uma empresa americana, produtora e distribuidora de morangos, com presença nos quatro cantos do mundo.

Com a chegada em breve de mais um elemento à família, José está a fazer algumas obras em casa e por isso não tem nenhuma divisão para eu poder dormir. E como chove, não dá muito jeito montar a minha tenda no enorme quintal. A solução? O José, como fantástico anfitrião que é, falou com um vizinho que no seu terreno tem uma casa de campo, onde tem uma cama e uma casa-de-banho, para ver se era possível eu ficar lá por uma noite. Sorte a minha que o vizinho gosta muito de Portugal e dos portugueses e foi com muito satisfação que ele deu as chaves da casa ao José.

Depois de tomar um banho, acompanho o José, ao centro de Aljaraque para algumas compras no único supermercado aberto. Mas antes, duas cañas e dois dedos de conversa :).

Já em casa, eles preparam o jantar, enquanto eu tento distrair o pequeno. Todos falamos em inglês o que facilita a comunicação. Jantamos, conversamos, rimos…são momentos únicos vividos com pessoas que me receberam de braços abertos e rapidamente nos tornámos amigos.

Até amanhã.

Hola Sevilha

23 e 24 de Abril de 2011

Os dois dias passados em Sevilha foram abençoados, não pelo espírito da Semana Santa, mas pela chuva. Nos vários meios de comunicação espanhóis, várias são as referências a uma das piores, ou mesmo, a pior Semana Santa de que há memória. Para terem uma ideia, das cerca de 60 confrarias que existem só na cidade de Sevilha, nem 20 confrarias puderam sair à rua com imagens dos santos. Algo que é considerado uma catástrofe para toda a Andaluzia, para as suas gentes e para todo o turismo que gera esta semana.

Mas como eu é mais bolos e salgadinhos, não procissões religiosas, estava muito confortável a descansar no apartamento com a minha namorada. E aproveitava para matar as saudades da cozinha e das panelas :).

No Domingo, dia 24 de Abril, o sol decidiu dar um ar da sua graça e decidimos que depois do almoço, iríamos até ao centro de Sevilha para um passeio.

Vamos de autocarro até ao centro depois de uma espera de 30 minutos na paragem…ao sol! É a terceira que visito a cidade de Sevilha e fico sempre surpreendido bela beleza desta cidade.


Pela cidade ainda se viam alguns sinais das (não) celebrações da Semana Santa que terminou esta manhã. Por isso, a cidade está calma e apesar de ainda muitos turistas passearam pela cidade, muitos já transportam com eles as bagagens para mais tarde regressarem aos seus países.

Por falar em regressos…o céu nublado e muito cinzento regressa e o vento começa a soprar. Depois de quase uma semana debaixo de chuvas intensas e céu nublado, já sei o que aí vem. Decidimos voltar para Bormujos. E quando estamos a chegar à central de camionagem, começa a chover. Um sprint final salva-nos de uma molha certa. Já no apartamento, vemos pela janela um panorama que começa a tornar-se habitual, mas de todo, bem vindo.

Amanhã volto à estrada e continuo a minha viagem. Portugal está cada vez mais perto e eu mais perto de deixar Espanha que me acolhe à quase um mês de viagem.

Por isso, arrumo as minhas coisas e dou uma pequena revisão à bicicleta. Depois de cerca de 1600km, apenas conto com dois furos…nada mais. Zero quedas e zero problemas na bicicleta e assim espero continuar.

Até amanhã.